take-away roots, 2007/08

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sinopse (pt)

“Aquele que não sabe amar planta raízes para levar” é um trabalho sem enredo, cuja voz pertence a uma mulher, que usa o seu corpo para exteriorizar um conflito interior. O corpo de mulher denuncia a sua posição na sociedade e obriga a seguir os trâmites impostos pela mesma. Só que a mulher deste trabalho anseia pela libertação, o que leva Sofia Silva a usar o seu corpo como forma de protesto.
Quando Sofia fotografa o seu corpo nu, ela pretende despir-se de convenções sociais, mesmo sabendo que isso não é o suficiente. É preciso ir mais longe. O corpo desnudado é agora um campo de batalha, onde não há lugar para o medo de fenecer, onde a dor é sublimada e a morte serenamente esperada. O medo de sofrer tolda a mente e enfraquece o corpo, deixa qualquer um à mercê dos seus instintos mais básicos. Quando Sofia vence a dor física, ela vence esse medo. Está sobre controlo da sua mente e do seu corpo.
Este trabalho é composto por uma parte gráfica, para a qual preparou uma instalação onde se auto-fotografou usando continuamente o suporte analógico e a sua câmara de médio formato, deixando bem claro que as suas referências estão tanto na fotografia como no vídeo, na performance como na literatura. A metáfora dos vegetais e da natureza/mulher fecunda é aproveitada de forma a abordar temas como a imagem estereotipada do universo feminino, o sofrimento e a morte. É através das raízes que a terra emite o seu cuidado, para que a semente que acolhe, se erga acima do solo. Ela mostra a sua generosidade fazendo com que a planta brote, mostrando-lhe a luz do sol e o mundo em redor. Só que esta ficará para sempre condenada a um manto que a paralisa. A terra nega-lhe a liberdade de tomar a vida como sua e de partir. É isto que Sofia mais receia – ficar presa a alguém, circunscrita no seu corpo de mulher a dividir a sua individualidade. Em vez disso, despoleta uma batalha. Ela revela o seu corpo numa tentativa de neutralizar a sua sexualidade; incapaz de manter uma relação com alguém, ela recolhe à natureza, onde dispensa o papel reprodutivo do progenitor; auto-mutila-se, para provar que é superior à dor e que não é um ser frágil e belo que convém preservar, cuidadosamente, na domesticidade.
Neste trabalho, a planta surge como mártir. O seu crescimento representa a esperança da protagonista em vir a amar. Durante nove meses – de Outubro a Junho de 2008 – fotografou a evolução de um conjunto de sementes que dispôs criteriosamente em vários vasos, até se tornarem em plantas. Tratou delas como uma mãe e estipulou: se elas sobreviverem sob os seus cuidados, também ela poderá cuidar de alguém, ou seja, amar. Elas cresceram, enchendo o seu estúdio de verde e de terra. O desenraizar destas plantas significaria a morte. Assim se passa nas relações que não perduram. Quando estas chegam ao fim, as raízes têm de ser removidas. É por isso que Sofia decide plantar raízes para levar.
Nas fotografias não existe um elemento masculino. As plantas com as quais cria uma ligação não são fruto do seu ventre, mas da sua relação solitária com a natureza. Nos poemas conserva a recordação de uma vida a dois: “O paladar de uma tortilha feita a dois/ Por entre os truques desta cozinha sobra o medo/ E para além do sal está o homem que mexe os ovos/ E por detrás dos ovos o animal que sou capaz de amar”.*
Neste trabalho, as fases de crescimento das plantas, simbolizam as etapas da vida humana. O trabalho braçal, aquele cuja força investida era traduzida em alimento, cessou de existir. O prato de comida que temos sobre a mesa, já não depende do sucesso da nossa colheita desse ano, mas da eficiência da máquina. O corpo, enquanto energia, perdeu a sua função de principal instrumento de trabalho. O resultado é o afastamento em relação à natureza e a impossibilidade de comunicar com esta. (“Na estrada deixei de ver os carros/ São as árvores que me guiam”).*
O momento da queda, não é dramático. Para a Autora, é apenas o clímax da existência. A consciência de sermos falíveis e mortais, condenou-nos a uma tentativa eterna de suplantar estas características e a ignorar a nossa origem. Quando Sofia se tenta ligar à terra através de fios eléctricos, percebe-se quão afastada a humanidade está da natureza. Nada nos distingue das plantas deste projecto, a não ser a consciência de sermos mortais. Aqui reside a verdadeira condição humana.
No trabalho de Sofia Silva não existe a barreira da carne, nem a hegemonia da mente. A obra artística extrapolou o papel e a película para se gravar na pele. Sofia tatuou no seu corpo excertos do seu trabalho, estabelecendo uma relação umbilical com a sua obra. No fundo das suas costas está tatuado “o meu corpo é um campo de batalha”. No poema “Novembro” confessa: “Somos campo de batalha/ Em que o passado encontra o futuro/ E o presente está ausente”.* No seu corpo, têm lugar várias guerras que a ultrapassam como mero mortal e como mulher: “Eu mulher e eu corpo de mulher/ procuro o tronco semi-ausente dessa estrutura” ou “Quero sugar o meu corpo de veneno/ No lugar em que sou toda barriga”.* O peso da herança transmitida por gerações de mulheres faz com que ela deseje ver a sua feminilidade apagada, tornando-se numa figura andrógina: “Eu tiro as sobrancelhas/ E não me reconheces/ Toda eu sou um programa alienígena de futuro”.*
Ao flagelar-se e ao negar o papel de reprodutora numa vida a dois, recorrendo ao amor das plantas, a protagonista de “Aquele que não sabe amar planta raízes para levar” não está só a contrariar a visão estereotipada da mulher. O seu corpo é agora fonte de vida e propriedade da natureza. Ele regressou a um estado primitivo, libertou-se do medo e já não sente a mágoa milenar de ser mortal. Ignorar a existência da morte, significa ser imortal, embora Sofia saiba que a obra pode perdurar e sobreviver.

Gérmen de trigo que é proveito para a família
Que cada lágrima minha te suavize o corpo
E cada gota de sangue te dê vida

texto de Daniela Côrtes Maduro

* Excertos de poemas de Sofia Silva, escritos à medida que o trabalho foi evoluindo.

Thee who do not love take away seeds shall grow* * *

statement (en)

(“Thee who do not love take-away roots shall grow” is a work without a plot, whose voice belongs to a woman, who uses her body to express an inner conflict. The woman’s body denounces her position in the society and forces one to follow the procedures imposed by it. Except the woman in this work is longing for liberation, what leads Sofia Silva to use her naked body as a way to protest.
When Sofia photographs her naked body, she intends to undress herself of social conventions, even knowing that is not enough. One has to go further. The naked body is now a battle field, where there’s no place for the fear of vanishing, where the pain is defeated and death serenely awaited. The fear of suffering blurs the mind and weakens the body, leaving anyone at the mercy of their primary instincts. When Sofia overcomes the physical pain, she overcomes that fear. She’s in control of her body and mind.
This work consists of a graphic part, for which she prepared an installation where she photographed herself, always using the analogical support and the medium-format camera, saying quite clearly that her references are as much in photography as in the video, in performance as in literature.
She takes advantage of the metaphor of the vegetables and the fertile nature/woman to approach teams like the stereotyped image of the feminine universe, suffering and death. It’s through the roots that the earth emits her care, so that the seed she shelters may raise above the ground. Sofia shows her generosity by helping the plant to grow, showing her the sunlight and the world around. Except the plant will forever be trapped in a mantle that paralyzes her. The earth denies her the chance to take life on her own and depart. That’s what Sofia most fears – to be trapped to someone, confined to the body of a woman, sharing her individuality. Instead, she starts a battle. She reveals her body in attempt to neutralize her sexuality; incapable of maintaining a relationship with someone, she takes nature for shelter, where she can dismiss the progenitor of his reproductive role; she mutilates herself to prove she’s above all pain and that she’s not a fragile and beautiful being one might want to preserve, carefully, in domesticity.
In this work, the plant becomes the martyr. Her growth denotes Sofia’s hope of being able to love. For nine months – from October 2007 to June 2008 – Sofia photographed the evolution of a set of seeds she specifically disposed through out some vases, till they became plants. She cared for them like a mother and agreed: if they survive her cares, it will mean she can care for someone, she can love. The pants grew, filling her studio with green and earth. To unroot them would stand for their death. Likewise in human relations that don’t last. When they’re over, the roots need to be removed. That’s why Sofia decided to plant take-away roots.
In the photographs there is no male element. The plants she bonds to don’t come out of her womb, but of the solitary relation with nature. In her poems she preserves the memory of a shared life: “The taste of a tortilla made by both/ Between the tricks of this kitchen lasts the fear/ And beyond the salt is the man who mixes the eggs/ And beyond the eggs the animal I’m able to love.”*
The growth stages of the plants symbolize the human stages of life. The corporeal work, whose effort was translated into food, ceased to exist. The plate we have upon the table is no longer dependent on the harvest of the year, but on the efficiency of the machine. The body, as energy, lost its function of primordial instrument of work. As a result, we get further from nature and from communicating with her. (“I no longer see the cars on the road/ It’s the trees that guide me”)*.
The moment of the fall is not dramatic. For the Author, it’s just the climax of her mere existence. The conscience of being fallible and mortal has condemned us to a never ending series of attempts to overcome these characteristics and to ignore our roots. When Sofia tries to connect to earth through needles’ tubes, one might wonder how disconnected humanity might be from nature. Nothing distinguishes us from the plants of this project, except for the conscience of being mortals. Here lies the true human condition.
In Sofia Silva’s work there is no meat barrier, nor the hegemony of the mind. The artistic work has stepped out of the paper and film to be engraved in her skin. Sofia has tattooed excerpts of her work, building an umbilical relation to it. In her lower back she tattooed “my body is a battle field”. In the poem “November” she confesses: “We are battle fields/ Where the past meets the future/ And the present fails to be”.* Several battles take place on her body, triumphing over her as a mortal and as a woman. “I, woman and I, body of a woman/ look for the semi-absent torso of this structure”.* Or “I want to suck my poisoned body/ In this place where I’m all belly”.* The weigh of heritage of women offspring make her wish to see her femininity erased: “I take off my eyebrows/ And you don’t recognise me/ I’m a futuristic alien program”.*
By hurting herself and by denying the reproductive role, relying on the love of plants, the Author of “Thee who do not love take-away roots shall grow” is not only refuting the stereotyped vision of woman. Her body is now a spring of life and nature’s property. She went back to a primitive stage, throwing away the fear and no longer feeling the millennial sorrow of being mortal. To ignore the existence of death means to be immortal, although Sofia knows the work might survive and endure.)

Gérmen de trigo que é proveito para a família
Que cada lágrima minha te suavize o corpo
E cada gota de sangue te dê vida

text by Daniela Côrtes Maduro

* Excerpts from poems by Sofia Silva